Aves limícolas enfrentam mais desafios em sua jornada exigente

Anos atrás, era simples, a gente viajava todo ano para o mesmo lugar, parava, comia. Agora, viajamos tensos”, diz Margot Arenaria, em entrevista exclusiva para o Bicoletim.

MARÇO 2023
PAUTA E REPORTAGEM: ISABELA TOREZAN
DADOS E IMAGENS: LAURA TOREZAN
ILHÉUS-BA

Do frio do ártico ao calor dos trópicos, e de volta ao hemisfério norte: desde que nasceu, Margot Arenaria cruza quilômetros pelos ares todos os anos, indo de um de seus vários lares a outro. A jornada, já naturalmente cansativa, tem ficado mais difícil nos últimos tempos devido à falta de senso de convivência de inquilinos humanos nesses lugares. A repórter do Bicoletim Isabela Torezan conversou com Margot Arenaria, uma Arenaria interpres, em Ilhéus, na Bahia, para saber um pouco mais sobre a vida de ave migratória e os desafios enfrentados por essa experiente vira-pedras e seu bando.

BICOLETIM: Nos conte um pouco sobre a sua história. A senhora nasceu nos Estados Unidos, certo?

MARGOT ARENARIA: Na verdade, no Canadá, no Ártico. Minha mãe me botou lá em 2014, provavelmente em julho, o mês que costumamos passar nesse lugar. Aí me registrei e peguei minha anilha no ano seguinte, na Sunray Beach Preserve, em New Jersey. Sempre volto nesse mesmo ponto em New Jersey, aquela nostalgia de infância, sabe? E o pessoal que me anilhou lá é muito querido, gosto de passar dar um oi para eles.

B: Interessante. E quais outros lugares vocês costumam visitar durante o ano? Estive vendo o mapa da migração de vocês e me pareceu um roteiro bastante exigente.

MA: Ah, sim, é um caminho longo, mas não trocaria a vida nômade por nada. No começo de agosto, quando as crianças já estão grandinhas o suficiente, começamos o caminho para cá, passando por várias praias no Canadá e Estados Unidos. Em outubro, às vezes novembro, chegamos no Brasil. Um dos meus lugares favoritos, devo dizer, apesar desse calorão. E esse ano está movimentado para mim, foi a primeira vez que viram minha anilha aqui! E ainda consegui ser entrevistada.

Margot Arenaria (centro) e seu irmão Carlos (esquerda) procuram por moluscos na Praia do Sul (Ilhéus – BA)

B: Bom saber que gostam do Brasil. Ficam aqui até quando?

MA: Até março mesmo, geralmente, estamos pensando em bater as asas semana que vem. Quero estar em New Jersey em maio, gosto de visitar mais de uma praia lá. Todo ano vou a Cooks Beach, Reeds Beach, Thompson Beach… Lugares fortes em gastronomia e eu confesso que nada me atrai tanto quanto boa comida.

B: Vamos falar de comida então. Qual a sua favorita?

MA: Ah, um bom molusquinho fresquinho recém tirado da areia. Macio, geladinho… Mas, já que estamos falando disso, acho importante você pôr na sua matéria que a coisa não está fácil não. Anos atrás, era simples, a gente viajava todo ano para o mesmo lugar, parava, comia. Agora, viajamos tensos, pensando que a praia pode ter virado, sei lá, um porto horrível cheio de barco. E adeus molusquinhos. Ou que nem aconteceu ano passado, chegamos numa praia tão nojenta que o Carlos falou “Margot, se sobrou comida aqui vai ter gosto de sujeira”, e a gente desistiu. Não me lembro exatamente onde foi isso, mas foi triste.

B: É revoltante, tenho vergonha da minha espécie. Aqui no Brasil, especificamente, como a senhora avalia a situação?

MA: Olha, vou ser bem sincera. Não está muito diferente dos outros lugares. Aqui mesmo em Ilhéus, inclusive, já passamos verões muito melhores do que atualmente. Uma das coisas que mais me irrita é essa gente que parece achar que a praia é uma continuação do quintal da casa delas, deixa o cachorro correndo e joga lixo no chão. Não tenho nada contra cachorros, tá, mas sinceramente, como esperam que a gente fique tranquila na areia com um vira-latas maluco correndo em volta?

B: Essa questão do lixo e da poluição são obviamente urgentes, afeta vocês de mais de uma maneira.

MA: Exatamente. Infelizmente eu tenho muitas histórias horríveis para contar. Parentes e amigos que morreram depois de engolir um treco de plástico qualquer, ano retrasado perdemos uma amiga que não era Arenaria, mas estava com a gente, por causa de petróleo derramado no mar. Não gosto de lembrar essas coisas, mas acho que só chocando as pessoas mesmo para fazer elas se mexerem. De uma forma geral, tudo que atrapalha a gente a comer em paz ou simplesmente descansar pode ser mortal, porque nosso roteiro exigente, como você disse, exige também que todo mundo tenha a sua cota de gordurinha no corpo e descanso suficiente. O pessoal não tem noção do tanto de quilômetros que a gente voa.

Roteiro exigente: a rota migratória atlântica de Margot Arenaria. Bandos de Arenaria interpres passam cada parte do ano em diferentes pontos desse percurso, que é uma das rotas feitas por essa espécie de ave migratória

B: É realmente impressionante, e notei que o bando de vocês não é muito grande. Sempre foi assim ou sente falta de mais parceiros de viagem? Imagino que o suporte mútuo é importante.

MA: Com certeza. Meu bando é tudo para mim, imagina lidar sozinha com esses problemas de que estamos falando. Perdemos alguns amigos, sim, por esses motivos. Recentemente, inclusive, estamos de luto pelo Peter, foi um acidente com uma linha de transmissão de energia elétrica. Mas como eu já disse, não gosto muito de falar dessas coisas, me desculpa. Mas quanto ao tamanho do bando, se você estiver pensando em outros bandos de limícolas que tenha visto, acho que o nosso é um pouco menor mesmo. Somos mais intimistas. Somos realmente uma família, sabe?

B: Peço perdão pelo assunto delicado, muito obrigada por compartilhar a sua história. Precisamos que mais gente saiba desses desafios e entenda a importância de preservar nossos ambientes naturais. Tem alguma outra coisa que a senhora gostaria de dizer para finalizar?

MA: Bom, eu sou uma ave positiva. Gosto de conversar com jovens como você, de qualquer espécie, e de acreditar que vocês podem fazer as coisas um pouco melhores. E sempre digo que se lembrem que todos nós dividimos a mesma casa, mesmo nós que voamos tantos quilômetros todo ano. Cuidem bem da nossa Terra.

Praia do Sul (Ilhéus /BA): conservação de praias é fundamental para vida das limícolas