Por Jorge Numenius – líder executivo da Comunidade de Maçaricos-de-Bico-Torto da Rota Atlântica (CMBTRA)
Enquanto todo mundo presta atenção no pingue-pongue entre o governo, a Petrobrás e o Ibama, vozes poderosas que querem impedir uma catástrofe de acontecer passam quase despercebidas. Estou falando, é claro, da comunidade que eu lidero, mas também de várias outras comunidades de aves e outros seres vivos (incluindo humanos) para quem a exploração de petróleo na foz do Amazonas significa, literalmente, a morte.
Muita coisa que li em jornais por aí me passaram a impressão de que o pessoal está tratando essa história como um problema do futuro, que vai demorar para ter consequências. O que estamos tentando dizer e parece que ninguém ouve é que isso está longe de ser um problema com efeitos lentos. Posso estar enviesado: percebo isso em quase qualquer opinião sobre a catástrofe ambiental que ignora que já estamos vivendo o apocalipse climático.
Falam que essa é uma fase de estudos, que não há risco enquanto a base não for instalada, etc. “Se depois a gente vai explorar, é outra discussão”, disse o presidente. Não é outra, não, é a mesma discussão, e uma que precisamos encerrar o quanto antes! O único estudo que me interessava era aquele que dizia se nossas vidas vão ser afetadas ou não, e isso já temos. Não precisamos de mais investigações para saber que, no momento em que começassem os trabalhos da petroleira, milhares de limícolas estariam em risco.
Se vazar petróleo no bloco FZA-M-59, vai demorar quase dois dias para a Petrobrás chegar lá com a suposta estrutura de controle de vazamentos deles. Muito antes disso, já vai ter óleo preto espalhado pelos manguezais da costa norte no Brasil, da Guiana Francesa e do Suriname, onde a gente come e descansa. Ficou com nojo de pensar em comer um molusco todo melecado de óleo? Pois bem, quem não morrer comendo molusco gorduroso vai morrer de fome no futuro, quando não conseguir tirar nada de comida desses manguezais mortos.
Gosto muito do Alaska, onde conheci minha querida esposa, mas gostaria de lembrá-los de que somos seres migratórios e dependemos também desses manguezais para essa coisa central na nossa vida que é a migração anual. Quero que meus filhos possam conhecer meus pontos de parada favoritos na migração, e que possam ter uma vida social saudável interagindo com os filhos de maçaricos-rasteirinhos e dos vira-pedras. Acima de tudo, quero poder continuar liderando minha comunidade sem a possibilidade de acordar e encontrar nossos lares tingidos de petróleo, essa cor terrível da ganância humana.
Para saber mais sobre as consequências da exploração de petróleo na Foz do Amazonas, Jorge indica este mini documentário.

Jorge Numenius é um maçarico-de-bico-torto (Numenius hudsonicus). Nascido no Alaska em julho de 2016, Jorge já fez a migração de ida ou volta para o Brasil 15 vezes, e está prestes a iniciar a sua décima sexta viagem. Além de seu trabalho como líder comunitário, Jorge é entusiasta da atividade física de resistência e orgulha-se de ter realizado um voo único de 4000 km sobre o oceano Atlântico, sem paradas para descansar. Suas comidas favoritas são moluscos e mirtilos.
