Em entrevista ao Bicoletim, a figuinha-do-mangue Tarsila Conirostrum explica as ameaças à biodiversidade dos manguezais e recomenda ações.
MARÇO 2025
REPORTAGEM: ISABELA TOREZAN
DADOS E IMAGENS: LAURA TOREZAN
CANAVIEIRAS – BA
A degradação dos manguezais causa o declínio populacional de muitas espécies de animais e plantas. Uma das espécies prejudicadas pelo nosso descuido é a figuinha-do-mangue (Conisrostrum bicolor), que hoje é considerada como “quase ameaçada” de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). O Bicoletim entrevistou Tarsila Conirostrum, representante da espécie, para saber mais sobre este ecossistema tão importante e o que podemos fazer para impedir a sua perda.
Bicoletim: Obrigada por aceitar falar com a gente. Pode nos contar um pouco da sua relação com o manguezal?
Tarsila Conisrostrum: Claro. Eu, e quase todos os meus parentes, sempre moramos por aqui e em outros manguezais, tenho só alguns conhecidos em umas florestas alagadas na Amazônia. Mas a nossa espécie prefere os manguezais mesmo. Aqui a gente consegue comer sem ser incomodada, eu gosto da privacidade que essas árvores me dão quando estou procurando meus insetinhos. Quando quero, posso descer no chão para procurar umas comidas mais diferentes sem nem ser vista. Não me imagino morando num lugar mais aberto, mais exposto. A gente realmente precisa desse lugar preservado.
B: E só de curiosidade, qual seu inseto e sua árvore favoritos?
TC: Adoro um maruim. E adoro todos os mangues, mas tenho um carinho especial pelo mangue-vermelho.

B: Conte-nos um pouco do que você sabe sobre a preservação do seu habitat. Sei que todo manguezal é uma Área de Preservação Permanente (APP), certo?
TC: Exatamente. Todo lugar que é manguezal está automaticamente protegido por lei. E a autorização para desmatar só deveria vir quando tem interesse público envolvido, mas não é bem isso que está acontecendo. Para você ter uma noção, 25% dos manguezais do Brasil já foram perdidos. Imagina, um quarto desses habitats tão ricos já não existem mais, fico pensando em todo mundo que morava lá.
B: Pois é, infelizmente esse não é o único caso de lei ambiental que não funciona. Pode compartilhar com a gente alguma experiência sua com essas ameaças?
TC: Ah, tenho muitas. Me mudei aqui para a RESEX porque o manguezal onde eu morava antes foi desmatado para virar criação de camarão. Hoje não consigo nem passar perto e ver, virou um monte de tanque e barragem. E um tio meu, o Jonas, teve que sair já no fim da vida do manguezal onde morava desde nascer porque desmataram para extrair madeira. Fora o fato de que todos nós somos afetados pela mudança climática né? A subida do nível dos mares e aumento de tempestades afetam todos os manguezais.
B: E tem também a questão do aumento das cidades…
TC: Com certeza. Tem muita cidade do Brasil que cresceu justamente para cima do manguezal. Nossa casa fica perto da praia e parece que vocês, humanos, gostam disso também. E o problema não é só construir em cima do manguezal, só de ter cidade perto a gente já fica sujeita a poluição. Nem os manguezais mais afastados estão escapando, ouvi falar de uns que sumiram por causa de uns hotéis chiques que construíram bem longe da cidade.

B: Tarsila, a maioria dos nossos leitores são humanos. Consegue explicar como esses problemas afetam a nossa espécie também?
TC: Olha, vários de vocês já sabem. Conheço um pessoal que tem uma ligação tão especial quanto a minha com esse lugar aqui. Essas pessoas também vão ficar tristes se desmatarem tudo. Mas, para quem ainda não conhece por aqui, posso lembrar que o manguezal é fonte de comida e de água para humanos também, e que essas árvores de formato engraçado são proteção contra erosão e contra eventos climáticos extremos.
B: E como residente de um manguezal, o que você recomenda que podemos fazer para colaborar?
TC: Ah, tem muita coisa que vocês podem fazer. Coisa simples, sabe, se você não é o cara rico que quer fazer um hotel de luxo em cima do manguezal, pode ajudar a organizar uma mobilização contra a obra. Fala para as pessoas, conta a importância do manguezal, tenta trazer mais gente para nos proteger. Sempre bom lembrar das coisas mais óbvias também, como não jogar lixo no chão se vier visitar a gente. Não passem muito rápido com barcos, por favor, que além de matar as árvores vocês assustam a gente. Som alto também, viu, me dá taquicardia e gasto energia à toa. Deixe ver o que mais… Bom, eu particularmente defendo parar de comer camarão, sabemos que pescar eles no mar não é algo muito legal e eu perdi o meu lar de nascença para uma criação de camarão.
B: Para finalizar a nossa conversa, eu quero deixar um espaço para você se manifestar livremente. Qual a sua mensagem final sobre a conservação da biodiversidade?
TC: Queria pedir para vocês nos ouvirem. Sei que são poucos humanos que, como você, entendem linguagem de aves, mas não precisa entender. Se só pararem um pouquinho para ouvir, já vão perceber quantos sons diferentes tem em um só lugar, quanta vida diferente convivendo tem aqui além de vocês. E tudo o que vocês fazem impactam essas vidas. Algumas delas podem até sumir, e aí vocês vão estar cada vez mais sozinhos num planeta triste e morto.

